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LISBON REVISITED (1923)

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos




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Wednesday, January 11, 2012
Corpo celeste ascendente

Talvez se nessa noite em que querias foder
não tivesses fugido
poderíamos ter construido o Mundo
ou um
lugar comum onde vivêssemos
e fodêssemos
onde leríamos poesia
e escutássemos a música
das torneiras
que pingam de noite
enquanto fumamos
à janela
semi-nus
tu ainda com a cona à mostra
e eu com o peito nu
junto à janela a beber chá
e a fumar como tínhamos dito
absorto nessa paixão do mundo
que ninguém vê realmente
que existe apenas para nós
quando fodemos
à noite
agarrados os dois
numa dança tribal antiga
onde as lágrimas atingem
"lugares mitológicos antigos"
(disse um amigo)
e ondas são os corpos dos mares
frescos onde flutuamos
libertos de tudo e
somos só
nós juntos
suor e amor,
juntos
num quarto escuro
onde gatos entram nas janelas
para a escuridão
da noite.



Óbidos, 17XII

Posted at 08:50 am by nelson_ribeiro
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Sunday, January 01, 2012
Monk

Se tivesse de te descrever
falava do gorro que seguravas
nos acordes do piano,
nos dedos esticados para a frente,
no sexo pungente
e no silêncio piedoso
de uma melodia quebrada.
Falava de ti como um
macaco selvagem
dono dessas florestas
habitadas de monstros obscuros
soberano da tua pila
impiedosa.

Ouço-te por entre as ruas,
cabisbaixo,
perdido entre o
fumo de cigarros
e os corpos prostrados
no chão,
como alçapões mágicos
inatingíveis.
No caminho
anões embriagados
falam-me palavras
indecífráveis,
fonemas obscuros
de uma paz solene
furtada dos teus braços.

E agora?
Questiono eu,
vivemos já demasiado.
Abordam-nos os pássaros
mortificados, ansiosos de te
libertar do sémen
envolvente.
Lembro-me de me dizerem
que a primavera era
como uma
lágrima iluminada
numa noite de
amor,
mas terei ouvido
de facto esse
som
ancestral?

Évora,
6\XII\11


Posted at 02:53 pm by nelson_ribeiro
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Thursday, November 24, 2011
Mar

Vejo os nossos projectos esquecidos.
O pó circunscreve-os e
nós parados em tascas a
beber vinho tinto barato
(um cartuxinho)
enquanto a chuva limpa
o sangue das ruas e
os barcos cadavéricos
se alimentam das ervas
secas de Outono.

Entre a sujidade dos copos
um corpo queda-se.
Gibraltar ficou para trás
há dias, e o mar
permanece frio e negro,
é um corvo que me fita
entre a floresta alta
e lúgubre
dilacerando o cadáver,
astuto, altivo,
negro azedume.

Não sei o que me diagnosticaram,
sei apenas que estou preso em casa
esse espaço mítico onde os sonhos
habitam paredes-meias com o sexo
resplandecente da madrugada.
Morrerei em breve,
de mim nada restará,
nem uma leve brisa
mergulhada nas encostas sombrias
das serras, estarei no vinho
e em ti
no sexo e no mundo
preso por versos
inacabados.

Évora, 4\XI\11

Posted at 04:04 pm by nelson_ribeiro
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Thursday, November 17, 2011
Conteúdo

para a Sandra

Nas comunidades costumávamos
escrever palavras sábias como
prendas ou outras que não me lembro
e andávamos de baloiço
no outono,
e ficávamos em casa quando chovia,
à janela a vê-la cair no chão
repetidamente.

Vivi assim anos,
fugi e corri,
escrevi, sobretudo
coisas que não defino,
porventura apaguei-as do
meu universo,
mas escrevi-as como
vejo a árvore.

Repetidamente
à janela via-a cair no chão,
e ficámos em casa quando choveu,
no outono,
coisas destas que se dizem
a pessoas com sorriso
bonito
a quem se escrevem
longos poemas
a falar da existência,
sem forma nem conteúdo,
poemas de vida.

Évora, 17XI

Posted at 02:47 pm by nelson_ribeiro
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Friday, November 04, 2011
São tantas as palavras

São

 

 

                                                                                                                     parecemos

 

 

 

 

                                   extintos.

 

 

Tantas

 

 

 

que

 

 

 

as

 

 

                                                                                                                              seres

 

 

 

 

 

 

                                                             Palavras

 

 

 

que

                    pequenos

 

 

 

 

 

                                                                                                           Domésticos

 

ocupam

 

o

 

 

Universo,

Posted at 04:55 am by nelson_ribeiro
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Thursday, November 03, 2011
em Sol menor

Falas-me dessa paisagem com carinho,
eu escuto-te calado e atento
ao mover dos teus lábios a cada sílaba
emanada pela doçura da tua boca
e viajo por esse campo
os meus passos são dados com a convicção
de quem mergulha num amor profundo.

Respiro o perfume do mar
enquanto os meus lábio beijam o teu corpo
escrevo estes versos sem forma
como um modernista
uma pessoa fora de tempo
emergido noutra época
bebo-te ainda assim
as tuas pernas, a tua face
o teu sexo
tudo tem um sabor suave e
agradável.
Deleito-me com esse sabor
o sabor das papoulas na
primavera e de túlipas
álcoolizadas. Bebo e bebo mais
sem parar para respirar
é o êxtase
bebo-te
consumo-te.

A chuva no vidro
é a última impressão da casa
a madeira fresca
junto da floresta
o vinho em Setembro
e o mel em Abril,
doces recordações de paisagens.

Posted at 03:37 pm by nelson_ribeiro
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Tuesday, August 09, 2011
A morte de Buñuel

Brincava comigo todos os finais de tarde sempre a sorrir ténuemente, com uma certa malvadez que lhe enchia o rosto de uma beleza quase poética transcendente a tudo o que vira jámais.
Matei-o ontem e ali ficou, estendido no chão, imóvel e lúgubre, sujo da poeira levantada com a sua queda ridícula, lenta e despreocupada. Caía morto, jazia ali como pedras acentes em sólidos solos seculares que nunca foram pisados, livres da poluição que são os humanos. Assim estava ele empoeirado no seu casaco preto acompanhado por uma camisa branca e também uns pequenos calções pretos.
Não senti nada, o fumo ainda se desprendia da arma, o cano certamente ainda tinha o calor típico de quem retira uma vida, trespassa a pele e o sangue, os orgãos, a alma, tudo perturbado por esse elemento terríficante vindo do exterior, daquele cano fálico ainda quente do prazer, do som que libertou o estalar da pólvora. Chegavam as primeiras pessoas alarmadas pelo barulho dos dois tiros disparados, e eu mantinha-me sentado, confortávelmente ainda a observá-lo morto, e com um certo alívio, de brincadeiras cessadas. De facto o meu corpo era tomado por uma certa paz, a respiração era tranquila, apesar do bater intenso do coração, e os olhos ao contemplá-lo, uma vida perdida, o ser que não é mais, que se transcende. sem choro, imóvel e inútil no chão, impregnado de pó bem visível  nas roupas escuras.
Fui capturado e acusado, disseram-me que seria executado por tal acto repugnante, e eu calmamente sem dizer um palavra concordei, como se pudesse simplesmente reclinar ou decidir, sentia-me bem, como um sultão oriental que manda os seus súbditos enfurcá-lo.
Fui colocado no sítio que entendiam devido, uma corda confortável foi apertada no meu pescoço, e um alçapão aberto.
Senti o ar ir-se, um forte aperto na faringe, e chorei. Tinha saudades dele, das suas brincadeiras, dos seus calções e casaco pretos, a camisa branca e os sapatos castanhos metidos numas meias brancas também, tinha saudades dele, embora não soubesse bem o significado dessa palavra, mas já ouvira várias pessoas proferirem-na. Meu filho, como jazias tranquilo defronte do teu pai assassino, tu branco e espumando sangue da tua doce boca, cagado de pó devido á queda, mudo e imóvel, e eu aqui, como tu e sem ar, só dôr e mágua de nos ter morto.

Posted at 12:05 pm by nelson_ribeiro
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Wednesday, July 06, 2011
Paysage

Rosas e cercas pontiagudas são o rosto que embalam num doce momento de ternura ao acordar e permanecem  trespassadas por uma guerra subtil ocorrida trinta anos antes. O horizonte  deperta o abrigo de girassóis queimados, mãos ásperas e peúgas velhas são putas à frente do cemitério fodendo o tempo e os velhos jornais pisados, atracam âncoras no campo minado e vacas ruminam em telhados Irlandeses como chimpanzés de rabo inchado a foder mulheres pobres e com roupa rasgada inextricávelmente ligadas a agulhas usadas. Pelas ruas lê-se Rimbaud, o poeta, mas todos desconhecem o que aconteceu com o movimento liberal que fora anunciado anos antes, já ninguém se importava grandemente com o protocolo nem com leis, agora apenas o sexo subrevive em becos e esquinas, na cidade onde o jazz navegava ao lado do perfume, doce constelação utópica.
Paysage
4VII (Covilhã) - 2I (Évora)
Nelson Luís Ribeiro

Posted at 04:22 pm by Benjy_Compson
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Thursday, March 10, 2011
A sombra nocturna

Diria eu que as aves migratórias
voam na Primavera para os recantos íntimos
da memória onde a noite se transfigura de passo
a passo As memórias apagam-se
dando lugar a sonhos inauditos que se consomem
numa leve baforada de cigarro enquanto que a mão
acaricia levemente as pernas macias da mulher despida

As pessoas viajam pelos caminhos subterrâneos
seguem o seu caminhos cabisbaixo
Não se apercebem da nudez geral
nem dos pressentimentos da carne fria que
abutres empalecidos hão-de reclamar
no leve movimento das suas ásperas
penas
A lua mantém-se imóvel e o canto
do corvo é agora a ténue variação da realidade
que possuímos.

Mocidade vencida nos tempos
em que guerrilheiros cantavam García LLorca
para as suas sereias os
Argonautas passeiam por aqui
convencidos do do seu amor
barcos celestiais pairam nos portos aéreos
deixando que as plumas dos seus
sonhos
se evadam pela população excitada.

Chamavam-me duende em jovem
e não ouviam os meus protestos
contra a aragem das tardes de Invernos
nos cais repletos de patos adormecidos

Hoje estou á deriva nos pesadelos mais
obscuros e o lodo gelado ata-me os pés
enegrecidos pelas doenças milenares
As mulheres há muito que partiram
para uma terra inóspita e os cães
ladram em vão

O mar é agora um grito profundo
que me ataca irremediavelmente
e a sua atrocidade é para mim
o mais belo momento de paixão
e amor eterno.

A sombra nocturna
90
Nelson Luís Ribeiro

Posted at 03:24 pm by nelson_ribeiro
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Saturday, February 05, 2011
Morte súbita de Olympia

Ao andar pela rua e ver as pedras da calçada sujas como as lágrimas derramadas no ar por um qualquer falcão negro em direcção às negras montanas onde crianças pequenas fumam cigarros escondidas da vergonha, não de serem apanhados, mas de tossirem quando mandam um bafo, mesmo que pequeno e inútil. Apercebemo-nos do romantismo esquecido nas nossas palavras fúteis e nos actos consumados durante o sexo profundo, ou o simples pentear de cabelo, (gosto de beijar o ar sereno) ou mesmo as simples coisas como beber café, adoro beber café e urinar na paz ancestral trazida num pôr-de-sol outonal tal como um quadro de Manet (ou Monet, ou Vieira da Silva, ou Klimt), perco a cabeça com estas coisas o puchar o fumo do cigarro e isso, esse momento é mesmo espantoso! Estou sozinho agora, sem cigarros, apenas com a solidão que o rebentar das ondas me traz e as recordações idílicas que me afagam a cabeça, tão docemente que adormeço para aqui encantado...

Posted at 11:13 am by nelson_ribeiro
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